Dar, dói

Dar, dói

              Acho que tinha mais ou menos 7 anos de idade quando uma prima chamou a mim e a meu irmão para dividir uma vistosa goiaba que ela tinha tirado do pé. Ela partiu a fruta pela metade e dividiu uma das bandas em duas partes, uma para cada um dos pequenos primos. Mas meu coração de criança, já egoísta e cobiçoso, não se conformou com aquela partilha. “Eu quero esse!” Dei um bote no pedaço maior da Goiaba e me afastei dando as primeiras mordidas.

Esse episódio foi só uma mostra do que eu seria como adulto: um pirangueiro de marca maior. Dividir, nem pensar. Partilhar, um sacrifício. Dar, dolorido. Sendo minha natureza dessa forma, dá para imaginar o quão incômodo era ler algumas passagens do evangelho. “Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem “, dizia, para minha tristeza, João Batista, quando ainda preparava a chegada do Messias. Depois disso, não queria nem continuar a ler, afinal, se João disse isso, o que não diria o Mestre. Não deu outra. Jesus chegou pegando mais pesado. “Dá a quem te pedir e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes”. Será que poderia ficar pior? Ficou: “Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo”.

Das duas, uma: ou eu não acreditaria no que a Bíblia falava sobre Jesus, ou teria que levar a sério as suas palavras. O problema é que Jesus fez com que eu acreditasse na Bíblia. Daí fiquei num beco sem saída. Só me restou fazer como o publicano que “estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!”. Foi então que eu lí: “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes”. Depois disso Jesus me disse: “Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, meu Pai corta; e todo que dá fruto limpa, para que dê mais fruto ainda”. Foi então que comecei a me colocar nas mãos do Senhor para que Ele começasse a me limpar. Como a sujeira é muita, a limpeza não aconteceu de uma hora para outra, mas já comecei a sentir o quanto “mais bem aventurada coisa é dar do que receber”.

É Jesus quem dá motivação para querer evitar gastos com supérfluos afim de ter como ajudar aos necessitados. A ajuda aos pobres (sem toque de trombetas) era uma das prioridades de Jesus. Como disse C. S. Lewis em seu artigo Moralidade Social: “A caridade – dar para os pobres – é um elemento essencial da moralidade cristã: na assustadora parábola das ovelhas e dos bodes, ela parece ser a questão da qual depende tudo o mais” (Mais informações em Mateus 25: 31 a 43). Lewis não está querendo dizer que a salvação é conquistada pelas obras. Ele só está lembrando que a fé sem obras não vale.

Mauro Gomes

Aprendiz de servo inútil

4 Comentário

  1. Marcio Batista

    Queridos irmãos,
    Graças a DEUS que JESUS quando subiu ao céu nos deixou o consolador para nos mostrar aonde estamos errando.
    Só basta estarmos atentos ao que Ele quer que façamos e sempre estarmos fazendo um exame introspectivo da nossa vida.

  2. Caro Mauro Gomes.
    Essa sua iniciativa é de grande valia para toda a humanidade. Seus textos vão possibilitar às pessoas, fazerem uma reflexão da própria existência. O texto(Dar,dói), me fez meditar sobre a verdade nele contextualiza.– Hoje, a falta de sensibilidade humana para com o próximo, que é um (princípio bíblico), está quase extinto na percepção da sociedade contemporânea. Poriso, vemos tantos conflitos nos dias atuais; Deus nos fez plenos de tudo que precismomos para ser Feliz, seus ensinamentos é um guia, ele nos conduz à plenitude. Obrigado pelo texto, ele me fez parar um pouco e, refletir sobre os ensinamentos de Jesus Cristo.
    Forte abraço,
    Antonio José

  3. Prezado Mauro, o pior é que às vezes o problema não é nem ser pirangueira(o). Eventualmente falta oportunidade ou mesmo a sensibilidade de perceber que se tem mais do que se precisa se desperdiça não apenas o que se estraga,mas também a oportunidade de abençoar outras vidas. E até mesmo de nos livrarmos de peso desnecessário em todos os sentidos da expressão.
    Certa vez comprei um livro para Cida e acabei lendo eu mesmo. Tratava-se de “Conte Comigo”, de Wanda Assumpção, da Editora Mundo Cristão, que com uma argumentação muito clara, se propunha a levar mulheres a meditarem profundamente sobre a real missão para a que Deus as destinou.
    Como Cida não aceitou, li o livro eu mesmo! E numa parte dele estava um texto explicando que consumimos muito do nosso tempo cuidando de materiais que de fato não precisamos. Coisas que ganhamos ou compramos por impulso e acabam jogadas em armários requerendo trato que nos toma tempo que nos falta para outras ações mais importantes.
    O texto me marcou tanto que tirei um tempo para revirar minhas roupas e ficar surpreso com o fato de que tinha cerca de 80 camisas de malha, por exemplo, embora utilizasse no máximo quatro/sete por mês. Escolhi as que mais gostava, nem eram as mais novas necessariamente, e doei o resto!

    • Seguindo esta mesma linha, fiquei mas criterioso em comprar brinquedos para os meus filhos. Em 99% dos casos o interesse deles pelos mesmos não passa de 7 dias. Daí vão se acumulando. A verdade é que desperdiçamos muito enquanto muitos não têm nem o que comer.

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