Santo hoje, pecador amanhã

Conta-se que um missionário encontrou um cacique que havia se convertido há seis meses e perguntou:

- E aí chefe, como vai a vida cristã

- Sinto como se dois cachorros, um branco e um preto, estivessem brigando ferozmente dentro de mim.

- E aí? Quem ganha essa briga?

- O que eu alimento mais!

Eu também percebo essa luta diariamente no meu interior. É uma verdadeiro UFC canino sem trégua nem intervalo. O cachorro preto quase sempre leva vantagem porque ele se alimenta do meu ócio espiritual.  Quando estou parado, sendo levado pela correnteza do mundo, o cão negro vai se fortalecendo. Para vitaminar o branco eu preciso remar contra a maré e, contrariando a minha vontade, sair da ociosidade espiritual para buscar avançar no conhecimento de Deus.

É uma luta desigual. O preto cresce com meu ócio e o branco precisa do meu esforço. É por isso que estou sempre pronto a cometer algum desvio. Posso ter a melhor das intenções quando começo a caminhada de um novo dia, mas, invariavelmente, fico sendo atacado por forças que tentam de desviar para a esquerda ou para a direita. Se não prestar atenção, continuarei no desvio e, quando me der contar, já será tarde demais. Essa luta desigual eu só consigo vencer com ajuda sobrenatural. Sem ela, meus desvios irão aumentando e, a cada dia, o retomada do caminho ficará mais difícil.

Posso ser um fiel frequentador de igreja, mas se meu cachorro branco não estiver sendo alimentado por meio do conhecimento de Deus, certamente eu estarei me corrompendo de alguma forma. Talvez eu não me torne um dos corruptos de Brasília, mas certamente serei tomado, pelo menos, por desvios mais sutis e mais tolerados na igreja como avareza, vaidade, maledicência, facção, porfia, inveja e etc. O que eu sei é que, sem Deus por perto, eu me desvio.

Observando a história da igreja percebo como o desvio sempre foi uma tendência do ser humano. O que se iniciava com a mais pura das intenções era, depois, contaminado pelo engano, cobiça e vaidade. Como é possível que seguidores de Jesus fossem capazes de queimar pessoas em fogueiras como fizeram no passado católicos e protestantes. A resposta eu encontro dentro de mim. Tenho a perfeita consciência de que, nas condições ideais de temperatura e pressão, eu também faria churrasco de gente.  Se não fosse assim, eu não precisaria de Jesus.

Outro dia cometi o pecado da gula em um rodízio de carnes. Sai do restaurante com o estômago estufado. Apesar disso, na manhã do dia seguinte, tive fome de novo. Não importa o quanto eu tenha comigo no dia anterior. A fome estará lá pela manhã. Assim também é o meu espírito. Não importa o grau de consagração que eu alcancei hoje. Amanhã meu espírito terá fome novamente. Se não alimentá-lo adequadamente estarei pavimentando o caminho que me levará da santidade a perversão. E o que é pior, a perversão em nome de Deus!

 

Mauro Gomes

Aprendiz de Servo Inútil

6 Comentário

  1. É Mauro, nossa oração tem que durar o dia inteiro, literalmente. E devemos continuamente pedir para que o Senhor não nos deixe afastá-Lo de nós. Nossa tendência natural ao ócio só abre as brechas para as quedas. É como escolher entre a folhinha de alface e a suculenta picanha na brasa… Como resistir?

    Não podemos deixar para “recarregar a bateria” no(s) culto(s) do domingo, temos que ficar conectados na Fonte.

    Nosso caminho é o apertado. E somente poucos o encontrarão.

    Mas que maravilhosa Graça de Deus que tem chamado os pequenos e errantes para um vida de santidade. Mesmo falhos e imperfeitos o nosso Deus continua a nos amar. Mandou o Seu Filho porque sabe que se dependesse do homem, seríamos todos condenados. Assim temos que buscar, só em Jesus, os exemplos para uma vida santa.

    Forte abraço e vamos à luta!

    “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela;
    E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem.”
    Mateus 7:13-14

  2. A vida é um eterno dilema entre o bem e o mal nos impondo diuturnamente avaliar nossos atos e omissões. Isso às vezes se torna um fardo pesado de carregar. Para alívio desse dilema que tanto nos atormenta, só existe um atídoto: — Conhecer os ditames da providência Divina. Esse conhecimento é imperativo no alívio da consciência humana. Distinguir entre permitido e proibido, disponibiliza opção de caminhos. Deus poderia ser impositivo nos negando a opção de escolha, mas não foi. Sua grandiosidade às vezes nos amedronta por sermos pequenos de entendimento. Os seus ensinamentos deixam claro a quem alimentar e os deixar forte. Isso é fruto da sabedoria Divina. O poder de dicernimento está em nosso coração, ele manifesta a sensação de conforto e desconforto diante de nossas decisões e atitudes, ele é holístico, um instrumento de DEUS que nos ajuda a caminhar na paz.

  3. Kátia Cunha

    Boa Noite,
    Estou de volta. Meu PC contraiu um virus resistente, e venho travando uma verdadeira “luta” com os novos tempos da mídia.Já estava com saudades do “grupo de discussão”.
    Mauro, você sabe que gosto muito dessa história sobre a luta íntima.Essa luta que travamos diante de nós mesmos e daquilo que nós conhecemos em nós.
    O pecado é sempre assim, é algo que nos embaraça. Por isso. o livro de Hebreus nos alerta “desembaraçando-nos de todo peso e pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta” Heb12:11. Ou seja,jogar fora de vez e de uma vez por todas, imediatamente, o que nos cerca, e o que nós sabemos nominar. Não é algo estranho a nós, nós sabem bem o que é. Por isso, que quem joga é o sujeito que sabe.
    Nesse caso, eu jogo fora imediatamente o que me cerca, o que me assedia, o que me impede a corrida.
    A única restrição que tenho a essa história, é a imagem, do preto e do branco. O preto como mal e o branco como bom, herança eurocentrica de nossa formação. Mas isso fica para outra conversa.
    Um abraço
    Kátia Cunha

    • É verdade Kátia, essa figura de preto e branco pode render até processo hoje em dia. Mas a Bíblia usa muito a figura das vestes brancas relacionadas a pureza e santidade. Quanto a jogar fora o que nos assedia, eu particularmente possuo estorvos de vários tamanhos. Os pequenos e médios tenho me livrado deles com a minha determinação e força de vontade. Os maiores necessito da permanente graça de Deus para me livrar deles ou, senão, controlá-los. Acredito que esses grandes existem para nos obrigar a depender da graça de Deus.

      • Kátia Cunha

        Mauro,
        Esse parece ser o segredo! aprender a depender da Graça de Deus. Outra coisa a acrescentar, sem dúvida há a figura das vestes brancas, mas há de vestes pretas enquanto antagônicas das primeiras? Um abraço meu irmão! E que a paz que vai além de todo o entendimento nos ajude a compreender o que humanamente não nos é possível!
        Sinceramente.
        Kátia

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